
Sob a brisa da sinodalidade e diante dos abismos de um mundo hiperconectado, a CNBB lança diretrizes que pretendem transformar paróquias em faróis de acolhimento e esperança
Por Paulo Teixeira / Aleteia
Imagine caminhar por este imenso mosaico de mais de duzentos milhões de almas que chamamos de Brasil. É um território que reza em português, mas cujas preces diárias carregam o peso das dores urbanas, da desigualdade e, cada vez mais, do ruído solitário das telas digitais. Se as pontes humanas não forem erguidas, os templos correm o risco de se tornarem monumentos de um passado distante.
Foi com esse olhar atento, desprovido de ilusões, mas carregado de esperança pastoral, que os bispos se reuniram para traçar os rumos da Igreja. O fruto desse discernimento coletivo acaba de ganhar vida: as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE), desenhadas para guiar os fiéis de 2026 a 2032 foram lançadas em junho. Longe de ser um mero regulamento burocrático, o documento se apresenta como um mapa do espírito, uma bússola moldada para orientar uma instituição milenar pelos mares da nossa modernidade.
Igreja de portas abertas
O coração desse novo direcionamento bate em sintonia com a sinodalidade, o apelo do Papa Francisco para uma Igreja que caminha junta, onde todos têm voz. Em um Brasil fragmentado por polarizações, as diretrizes de 2026-2032 propõem uma revolução silenciosa nas paróquias. A meta é transformá-las em “comunidades de comunidades”, deslocando o foco das engrenagens da burocracia para o calor do encontro verdadeiramente humano.
Na apresentação, Dom Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e presidente da CNBB, traduziu esse anseio com a sensibilidade de quem conhece as feridas do rebanho:
“Não podemos aceitar uma Igreja que funcione como uma alfândega pastoral, ditando regras sobre quem pode ou não entrar. O Evangelho é um banquete gratuito de misericórdia. Nossas paróquias precisam ser lares acolhedores, espaços onde aqueles que foram feridos pela vida encontrem repouso, escuta sincera e um abraço que não julga. As diretrizes para este novo septênio são um chamado urgente para retornarmos à nossa essência mais pura: o amor que se faz presença e serviço.”
Essa mudança exige que os católicos avancem em direção às periferias existenciais. O texto insiste na revitalização das pequenas comunidades eclesiais, células de fé que se reúnem nos lares, ali onde a vida real pulsa. Dom João Justino de Medeiros Silva, vice-presidente da entidade, reforçou essa abertura:
“A Igreja do futuro, que já começou a ser desenhada, ou será uma Igreja que sabe escutar ou perderá sua capacidade de anunciar a boa-nova. O processo sinodal nos ensinou que a voz do povo de Deus traz lampejos do Espírito. Estas diretrizes organizam nossa ação para que cada batizado se compreenda como corresponsável ativo na evangelização.”
Curando as solidões
Para além do asfalto das metrópoles, as diretrizes lançam as redes em um território desafiador: o vasto continente digital. Em uma era na qual algoritmos moldam desejos e espalham desinformação, a CNBB reconhece que as redes sociais não são meras ferramentas de transmissão. Elas constituem um autêntico ambiente existencial, habitado por milhões de pessoas que, por trás de perfis reluzentes, enfrentam o fantasma da solidão crônica e o vazio da falta de sentido.
Ao analisar essa realidade, Dom Ricardo Hoepers, secretário-geral da CNBB, propôs uma reflexão profunda sobre a postura cristã no ambiente virtual:
“O mundo digital está repleto de redes conectadas, mas dramaticamente carente de relações humanas verdadeiras. Corremos o risco de falar apenas para telas vazias de empatia. As novas diretrizes nos desafiam a assumir uma postura samaritana na internet. Levar o Evangelho para o mundo digital não se resume a transmitir celebrações ou acumular curtidas; significa humanizar as redes, curar as solidões com a proximidade do afeto, a busca pela verdade e o diálogo paciente.”
Até 2032, o planejamento prevê um esforço na qualificação da comunicação eclesial e no protagonismo dos leigos, convocados a ser pontes com a cultura contemporânea. Além disso, as diretrizes vinculam a proteção da Casa Comum — com atenção especial à Amazônia — à defesa da dignidade humana e da justiça social, lembrando que o grito da Terra e o grito dos pobres são um único clamor. O que se desenha é uma jornada de regresso ao essencial. A bússola para 2032 está apontada para a esperança.
