
A oposição à IA generativa não é de modo algum uma posição exclusiva dos católicos, já que pessoas em várias partes do mundo estão se organizando para desencorajar a expansão da tecnologia.
Por Por Jonah McKeown / ACI Digital
Eliza Monts estava ansiosa para ler as orientações do papa Leão XIV sobre inteligência artificial (IA) quando a encíclica Magnifica humanitas foi lançada em maio.
Escritora e criadora de conteúdo popular nas redes sociais, vivendo em Charleston, Carolina do Sul, EUA, Monts decidiu sintetizar a análise do papa sobre IA numa lista objetiva de prós e contras. “Maior velocidade e eficiência na execução de tarefas” foi listado como um “pró”, por exemplo, enquanto os efeitos negativos do uso excessivo de IA na educação dos jovens entraram na lista de “contras”.
Mas, depois de uma leitura atenta da encíclica do papa, com 42 mil palavras, a análise não foi tão equilibrada. Monts contabilizou só cinco pontos positivos e 37 negativos.
O exercício só serviu para reforçar as convicções que Monts já tinha sobre a IA.
“Ser humano importa e é algo único, porque somos feitos à imagem e semelhança de Deus, e um robô não”, disse Monts, de 27 anos, ao jornal National Catholic Register, da EWTN. “Acredito fortemente no movimento que não quer ver o ser humano marginalizado em favor do robô”.
O “movimento” a que Monts se refere é um número crescente de católicos que decidiram não usar IA, especificamente a variante “generativa”: tecnologia que supostamente cria textos, imagens, áudios ou códigos de computador a partir de padrões estatísticos em bancos de dados massivos. A maioria das pessoas já teve contato com IA generativa por meio de “chatbots” como ChatGPT, Claude, Grok e Gemini.
A oposição à IA generativa não é de modo algum uma posição exclusiva dos católicos, já que pessoas em várias partes do mundo estão se organizando para desencorajar a expansão da tecnologia. Outras preocupações importantes, como o impacto ambiental de centros de dados de IA, também alimentam a resistência.
Mas o grupo católico anti-IA se vê acrescentando uma perspectiva baseada na fé, centrada na defesa da dignidade da pessoa humana, criada à imagem de Deus, com criatividade e intelecto concedidos como dons pelo Espírito Santo.
E embora esses católicos não tenham recebido exatamente a forte condenação dos chatbots de IA do Papa Leão XIV que esperavam, eles ainda acreditam que sua posição está ganhando força.
“Não está acontecendo num lugar específico ou em só numa paróquia”, disse Marc Barnes, editor da revista católica New Polity, sobre o movimento. “Está acontecendo em todos os lugares onde as pessoas acham meio ridículo e deprimente que seus amigos estejam conversando com fake people (pessoas falsas)”.
Uma Coligação Diversa
Os católicos contrários à inteligência artificial vêm de diversas origens, e seus argumentos contra a tecnologia são tanto filosóficos como práticos.
O movimento tem jornalistas e pensadores influentes, como Matthew Walther, fundador da revista católica The Lamp, que chamou a IA de “um mal que todas as pessoas deveriam rejeitar”. Lily Abadal, professora de filosofia da Universidade do Sul da Flórida, em St. Petersburg, EUA, disse que “o Espírito Santo não guia as ações” dos chatbots.
Artistas visuais, chocados com a proliferação online de “lixo” gerado por IA, têm se manifestado veementemente. Chris Lewis, criador do estúdio de arte católica Baritus, chamou a arte de IA de “uma zombaria ou imitação da verdadeira e autêntica criatividade “. A artista sacra Kate Capato disse, numa longa postagem em seu blog, que os católicos “devem estar em guarda contra a infiltração de imagens de IA em nossos espaços sagrados, e especialmente em nossa liturgia”.
Entre essas vozes, a New Polity, publicação liderada por Barnes, tornou-se um ponto de encontro para a chamada “aliança anti-chatbot”. Além de dedicar uma edição recente inteira aos males associados à IA, a publicação está organizando um evento em outubro em Steubenville, Ohio, EUA, com o objetivo de formar uma resistência católica organizada à normalização da IA generativa.
Uma ameaça à dignidade humana
Alguns dos argumentos contra a IA que ganharam força na cultura em geral também agradam a muitos católicos. Por exemplo, centros de dados que consomem muitos recursos e são necessários para processar a IA têm impacto negativo no meio ambiente; existe o perigo de usar a tecnologia para substituir, em vez de aprimorar, a cognição humana; e há ampla evidência sugerindo que os chatbots são perigosos para crianças.
Embora todos esses argumentos ainda estejam sendo intensamente debatidos, a principal preocupação dos católicos, em particular, é que falar com uma entidade não-humana de maneira semelhante à humana — mesmo que os usuários saibam que não estão falando com uma pessoa real — é antinatural, irracional e incompatível com a visão católica de dignidade humana.
Barnes, professor da Faculdade de São José Operário em Steubenville, EUA, causou polêmica no ano passado com um ensaio intitulado sucintamente AI Chatbots Are Evil (Chatbots de IA são malignos), posição que ele vem defendendo desde então em diversos debates que duraram várias horas.
Barnes também pediu enfaticamente que o Magisterium — um produto popular de IA treinado para se basear só em fontes católicas e que usa uma interface de bate-papo — seja “excluído”, reafirmando sua opinião de que os chatbots em geral são malignos “porque, por sua própria natureza, envolvem o ser humano num ato irracional”. Os chatbots selecionam suas palavras só por meio da probabilidade, disse ele, e, assim, não podem “testemunhar” pessoalmente a verdade da fé católica como os seres humanos podem.
Barnes diz também que chatbots exacerbam condições já disseminadas de solidão e alienação, ao incentivarem a conexão com uma entidade não-humana. Em contrapartida, quando uma vida católica é vivida plenamente em comunhão com o próprio Cristo e com outros fiéis, “a IA torna-se cada vez menos atraente como remédio para a doença da solidão que caracteriza nossa cultura”, disse ele.
Embora vários católicos contrários à IA tenham dito ao Register que acreditam que a tecnologia de modelos de linguagem abrangentes (LLM, na sigla em inglês) que sustenta a IA pode ter usos legítimos, o problema das interfaces baseadas em bate-papo — mesmo que usadas para IAs “católicas” — continua sendo um sério ponto de atrito.
Monts diz que a mensagem do papa Leão XIV, de janeiro, para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais — na qual o papa descreveu o comportamento dos chatbots como “enganadora, especialmente para as pessoas mais vulneráveis” — como a base de suas opiniões sobre IA baseada em chat, que se alinham fortemente com as de Barnes.
Na plataforma online Substack, Monts publica frequentemente com títulos como Vale mesmo a pena destruir seu intelecto por causa da IA? e Como desvincular sua vida da IA em 15 minutos. Numa publicação do fim do mês passado, na qual descreveu sua luta pessoal ao ver o conteúdo sobre IA proliferar, ela implorou aos seus leitores que se importassem com o fato de que, em sua opinião, milhões de pessoas estão diminuindo voluntariamente seus dons intelectuais e criativos dados por Deus ao terceirizar atividades intelectuais para robôs.
“Isso nos machuca muito… mas, de uma perspectiva egoísta, você precisa convencer as pessoas de que as desvantagens superam as vantagens”, disse ela.
Diferença de interpretação
Católicos contrários à inteligência artificial disseram ao Register acreditar que os critérios de discernimento estabelecidos pelo papa Leão XIV na Magnifica humanitas apoiam decisivamente a conclusão de que os católicos não devem usar inteligência artificial generativa. Mas essa interpretação está longe de ser universal.
Um dos trechos mais controversos da encíclica é o parágrafo 100, no qual o papa escreveu que “a inteligência artificial pode ser uma ajuda preciosa, exigindo, ao mesmo tempo, uma abordagem sóbria e vigilante”.
Os católicos céticos em relação à IA interpretam o apelo do papa à moderação como justificativa para não conceder à tecnologia e aos seus criadores o benefício da dúvida. Mas os católicos mais otimistas quanto ao uso da IA veem essa passagem menos como uma advertência para rejeitar a tecnologia e mais como um desafio para que os católicos usem e direcionem a tecnologia para bons fins e usos positivos.
Matthew Harvey Sanders, criador da Magisterium AI, disse, depois da publicação da encíclica, que as críticas do papa Leão XIV apontam para a conclusão de que os católicos não devem se retirar do campo da IA, mas sim se engajar na construção de sistemas de IA melhores desde o início.
Taylor Black, católico que é diretor de IA e ecossistemas de empreendimentos da Microsoft, disse ao Register que não vê a IA como diferente de outras tecnologias que os católicos “batizaram” e usaram para ajudar a espalhar o Evangelho ao longo dos séculos.
Mas alguns católicos bastante críticos da IA disseram sentir preocupação com o fato de a orientação do papa estar muito aquém de uma proibição universal.
Por exemplo, Ned Desmond, ex-executivo do Vale do Silício, escreveu na revista First Things que a Magnifica humanitas foi uma “oportunidade perdida” para destacar os perigos dos chatbots.
E Walther, numa crítica contundente para o jornal americano The New York Times, escreveu que considerou o tratamento dado à IA na encíclica “decepcionantemente comedido e cauteloso” e até mesmo “ingênuo”, dizendo que a visão aparentemente positiva do papa sobre a IA como uma ferramenta com usos éticos corre o risco de ser mal interpretada como uma licença para deixar a IA proliferar.
Na ausência de qualquer proibição do papa ao uso de IA, Walther disse que os católicos comuns deveriam demonstrar presença pessoal vivendo sua fé e participando dos sacramentos, em vez de formar qualquer tipo de relacionamento com uma entidade desencarnada e não-humana.
Um movimento contracultural
Embora as implicações da Magnifica humanitas possam ser debatíveis, a encíclica não é a única orientação da Santa Sé sobre IA. Por exemplo, o papa Leão XIV pediu explicitamente a exclusão de certos usos da IA, advertindo os padres a não usarem IA para escrever homilias e dizendo aos jovens para não deixarem a IA fazer seus trabalhos de casa. Ele também alertou em termos fortes contra a simulação de vozes e rostos humanos e, em sua encíclica, expressou profundo ceticismo e preocupação com o uso da IA na guerra.
Barnes aprecia o fato de o papa não ter proibido totalmente os católicos de usar IA, mas sim, com “o ritmo perfeito”, estar chamando os fiéis de volta aos princípios fundamentais e os incentivando a cultivar seu próprio discernimento. Se uma condenação papal da IA generativa algum dia ocorrer, Barnes suspeita que isso só acontecerá depois de muito debate, semelhante à maneira como a Igreja levou anos para estudar e discernir antes de afirmar a proibição tradicional contra o controle artificial da natalidade na década de 1960.
Independentemente do que o futuro reserve, Monts diz estar focada em responder ao fenômeno da IA não só com lógica e argumentos, mas também com oração. Ela falou também sobre a possibilidade de que, num futuro em que o conteúdo gerado por IA seja ainda mais onipresente, a oferta de palavras e arte criadas por humanos possa ser considerada, extraoficialmente, uma “oitava obra de misericórdia espiritual”.
Para Monts, esses primeiros dias de resistência contra a IA, liderada principalmente por leigos, lembram bastante o que ela leu sobre os primórdios do movimento pró-vida nos EUA. Mas ela também se sente reconfortada com o número crescente de católicos que não só expressam ceticismo em relação à IA generativa, mas também tomam a decisão contracultural de não usá-la.
“Estatisticamente, a maré está mudando. As pessoas odeiam centros de dados. Odeiam IA generativa. Nos EUA, em geral, as pessoas estão se manifestando veementemente contra isso”, disse ela, dizendo que costuma receber mais mensagens diretas de católicos agradecendo por sua mensagem contra a IA do que expressando oposição.
“Preciso me lembrar disso com frequência”, disse ela. “Que na verdade não estou sozinha”.