
Por Victoria Cardiel, Nathali Paredes | ACI Digital
A poucos dias da primeira viagem do papa Leão XIV à América do Sul, a secretária da Pontifícia Comissão para a América Latina (PCAL), Emilce Cuda, destacou a profunda ligação do papa com a América Latina.
“Não devemos esquecer que ele é um bispo da América Latina. É um papa das Américas: nasceu na América do Norte, exerceu seu episcopado na América Latina e hoje é o Sumo Pontífice”, disse em entrevista concedida ao telejornal EWTN Noticias.
A teóloga argentina, que trabalhou estreitamente com o então cardeal Robert Francis Prevost quando ele presidia a PCAL, disse que Leão XIV deixou claro, desde o início de seu ministério, a continuidade com as principais orientações eclesiais do Concílio Vaticano II e com a exortação apostólica Evangelii Gaudium, considerada o roteiro do pontificado do papa Francisco.
“Ele afirmou a continuidade do Concílio Vaticano II e também disse que dará continuidade à exortação Evangelii Gaudium. Isso não é dar continuidade ao papa Francisco; é dar continuidade ao pontificado, como acontece com todos os pontífices”, explicou.
Uma “festa” para as três Américas
A secretária da PCAL descreveu a próxima viagem apostólica à América Latina como “uma festa para as três Américas”. De 6 a 17 de novembro de 2026, o papa visitará o Uruguai, a Argentina e o Peru. A viagem marca seu retorno às terras latino-americanas onde desenvolveu por anos o seu trabalho pastoral e missionário. “Aquele que era, na época, o cardeal Prevost retorna à terra americana já como pontífice”, observou.
Sobre a etapa argentina da viagem, de 8 a 10 de novembro, Cuda refutou as comparações com a ausência de uma visita de Francisco ao seu país natal. Para ela, a atenção deve se concentrar na identidade própria do atual papa.
“Não se deve confundir com (a ideia de) que o papa Leão vem ao lugar onde Francisco não veio. A Argentina teve um grande amor pelo papa Francisco, mas tem muito claro que quem vem é o papa Leão, com sua magnífica humanidade”, disse, citando o título da encíclica de Leão XIV sobre inteligência artificial.
Uma Igreja próxima ao povo
Ao responder sobre as principais inquietações pastorais que recebe a partir de seu trabalho na Pontifícia Comissão para a América Latina, ela disse que “a Igreja latino-americana é muito visível. O CELAM (Conselho Episcopal da América Latina e Caribe) comunica não apenas as suas atividades, mas também as atividades de todas as conferências episcopais latino-americanas”.
Cuda descreveu a América Latina como “um continente muito organizado”, onde existem muitas instituições inspiradas pela fé católica, entre elas universidades, sindicatos, movimentos populares e organizações ligadas à terra e ao trabalho.
Segundo Cuda, essas organizações não apenas transmitem as necessidades das comunidades, mas também suas aspirações. “Todos os dias são comunicadas não somente as necessidades, mas também os sonhos”, disse.
A secretária da Pontifícia Comissão para a América Latina disse também que a visão cristã não pode dividir a vida humana entre corpo e alma. “Não se podem separar as necessidades espirituais das necessidades físicas, porque nós, cristãos, não somos dualistas que separam corpo e alma”.
Ela disse que as conferências episcopais, universidades, sindicatos, movimentos populares e organizações católicas trabalham em estreita relação com os desafios cotidianos das pessoas, mantendo uma presença constante nos territórios.
Cuda destacou que questões como a dívida externa, o emprego digno, o acesso ao ensino superior, a habitação ou as oportunidades para os jovens fazem parte integral da missão pastoral da Igreja.
“A Doutrina Social da Igreja fala do espiritual em um sentido material, tocando a carne sofredora de Cristo no povo”, disse.
“Ouçam o Santo Padre”
Ao responder sobre as características pessoais de Leão XIV que espera que os fiéis descubram durante a viagem, Cuda destacou, especialmente, sua proximidade humana, sua capacidade de escuta e seu amplo conhecimento da realidade latino-americana.
“É uma pessoa maravilhosa, muito afetuosa, que conhece muito bem a realidade da América Latina nos âmbitos social, político e universitário”, disse.
“Gostaria que as pessoas ouvissem o Santo Padre, e não os comentaristas do Santo Padre. Que observem seus gestos, o brilho em seus olhos, como ele se emociona ao ver os jovens e como esse povo o ama”, concluiu.
