Memória e Devoção: a origem e a continuidade da Bênção da Saúde entre o Morro do Castelo e a Tijuca

Ladeira de acesso à Igreja de São Sebastião (Morro do Castelo).

Bênção da Saúde: da antiga Igreja de São Sebastião, no Morro do Castelo (1886), ao atual Santuário Basílica de São Sebastião dos Frades Menores Capuchinhos, na Tijuca

Frei Reinaldo Avila de Moura (OFMCap)*

A Bênção da Saúde é uma tradição na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Celebra-se na primeira sexta-feira de cada mês. De modo especial, na primeira sexta-feira de cada ano, quando uma multidão se dirige à Basílica de São Sebastião dos Frades Menores Capuchinhos, na Tijuca, para implorar as bênçãos de Deus para o ano que se inicia.

Antecedentes históricos

A atual igreja de São Sebastião dos Frades Menores Capuchinhos, na Tijuca, foi inaugurada em 15 de agosto de 1931. O referido templo sucede a antiga Igreja de São Sebastião, no Morro do Castelo, edificada em 1567 e reconstruída por Estácio de Sá em 1583. Para esse templo foram transferidas importantes relíquias históricas da cidade: os restos mortais de Estácio de Sá, fundador do Rio de Janeiro; o marco zero; e a pequena imagem de São Sebastião, esculpida em 1563.

Em 1842, o Imperador Dom Pedro II confiou a Igreja de São Sebastião do Morro do Castelo e as três relíquias supramencionadas aos cuidados da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos. Em 1922, por ocasião da demolição do Morro do Castelo, o templo deixou de existir. Sob a responsabilidade da Ordem, essas três principais relíquias históricas — e muitas outras — encontram-se hoje na Basílica de São Sebastião dos Frades Menores Capuchinhos.

Em 9 de janeiro de 1947, o Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara, então Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, elevou a igreja de São Sebastião, na Tijuca, à categoria de Paróquia. Em 8 de junho do mesmo ano, foi instalada a nova Paróquia de São Sebastião do Antigo Morro do Castelo. O primeiro pároco foi Frei Jacinto de Palazzolo.

Gruta construída no Morro do Castelo, ao lado da Igreja de São Sebastião (igreja dos Capuchinhos) em homenagem à Nossa Senhora de Lourdes. Fotografia de Augusto Malta de 02 Maço de 1919.

A Gruta de Nossa Senhora de Lourdes e a Bênção da Saúde

Na Igreja de São Sebastião, no Morro do Castelo, havia a Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, onde, às sextas-feiras, o povo era acolhido com carinho para a tradicional bênção, conhecida como “Bênção dos Barbadinhos”.

Do final do século XIX aos dias atuais, foram três as grutas nas quais o povo foi — e continua sendo — acolhido pelos Frades Menores Capuchinhos para a Bênção da Saúde.

A primeira Gruta de Nossa Senhora de Lourdes foi construída ao lado da Igreja de São Sebastião do Morro do Castelo, por Frei Fidélis de Ávola, atendendo ao pedido do senhor José Rafael de Azevedo, devoto de Nossa Senhora de Lourdes, que custeou a obra. A construção foi uma forma de agradecimento por uma graça alcançada: a cura de grave enfermidade. A gruta foi inaugurada em 7 de dezembro de 1886. Por iniciativa de Frei Fidélis de Ávola, à semelhança do que se realiza em Lourdes, na França, iniciou-se nesse dia a bênção aos enfermos. A partir de então, todas as sextas-feiras, os doentes subiam a colina do Castelo para receber a bênção na gruta.

A segunda gruta situava-se na entrada da atual Basílica de São Sebastião dos Frades Menores Capuchinhos, na Tijuca. Sua reconstrução foi possível graças a ofertas deixadas pela falecida Dona Maria Paiva Magalhães Bastos. Foi inaugurada festivamente em 8 de setembro de 1937. Na solene cerimônia, esteve presente uma filha do senhor José Rafael de Azevedo, benfeitor que financiara a construção da gruta no Morro do Castelo.

Atualmente a bênção dos capuchinhos é realizada na primeira sexta-feira de cada mês, mas o forte mesmo é em janeiro, na primeira sexta-feira do ano.

A terceira gruta é a que conhecemos atualmente, localizada entre a Basílica de São Sebastião e o Convento dos Frades Menores Capuchinhos. Em 1947, com a criação da Paróquia de São Sebastião do Antigo Morro do Castelo, por iniciativa do então pároco e guardião, Frei Jacinto de Palazzolo, a gruta foi definitivamente reconstruída no local onde permanece até hoje. Sua inauguração solene ocorreu em 12 de outubro de 1947.

Documentário: o fim do Morro do Castelo

*Frei Reinaldo Avila de Moura (OFMCap) é Historiador.

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