“Cuidar de si para cuidar do irmão” marcou a Assembleia 2026 da Província Nossa Senhora dos Anjos

 

Partilhas e reflexões destacaram que autocuidado não é individualismo, mas condição para uma missão mais fecunda e sustentável

Por Emilton Rocha*

De 2 a 5 de fevereiro estará sendo realizada no Rio de Janeiro a edição 2026 da Assembleia Provincial da Província Nossa Senhora dos Anjos, que abrange os estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Com o tema “Cuidar de si para cuidar do irmão”, os frades fizeram a oração de abertura e, em seguida, a assembleia foi aberta pelo Ministro Provincial, Frei Dalvio José da Silva, na Fraternidade São Sebastião, na Tijuca, Rio de Janeiro. A assembleia é realizada anualmente e o encontro serve para aprofundar as discussões de temas diversos de interesse da Ordem.

O tema “Cuidar de si para cuidar do irmão” é uma síntese bem capuchinha (e bem evangélica) de uma ideia simples: a fraternidade só se sustenta quando cada irmão é cuidado por inteiro — e também aprende a se cuidar. O lema lembra que ninguém sustenta por muito tempo o cuidado do outro vivendo no esgotamento. A lógica é: quanto mais eu cuido, mais preciso estar bem cuidado — por Deus, pela fraternidade e por práticas concretas de saúde e equilíbrio. E isso está bem alinhado ao espírito franciscano de São Francisco de Assis: fraternidade não é ideia bonita; é amor em gestos concretos, inclusive na atenção aos irmãos.

“Nós reunimos anualmente todos os frades da Província em assembleia. Além dos temas normais de cada ano sobre a vida da Província, da Pastoral, da Administração, da Formação e outros assuntos específicos da Província” – disse Frei Dalvio José da Silva, Ministro Provincial. “Costumamos trazer um tema para que possamos pesquisar e refletir. Este ano o tema que trouxemos foi sobre saúde mental e saúde psíquica [“Cuidar de si para cuidar do irmão”]. É uma realidade muito comum que estamos vivendo na Igreja, pois vivemos uma vida atribulada, com nossas correrias e se não nos cuidarmos terminaremos perdendo o rumo e o prumo da vida. Foi um momento para refletirmos sobre isso, para darmos uma parada e analisarmos como está a nossa vida, nossa correria, nossa caminhada, onde a gente precisa parar, onde precisamos melhorar. Enfim, foi uma semana muito proveitosa – resumiu.

Os trabalhos estão sendo assessorados pelo Padre Vagner Sanagiotto, frade carmelita e doutor em Psicologia pela Università Pontificia Salesiana (Roma), o qual se dedica ao estudo da prevenção das psicopatologias e da promoção da saúde mental na Vida Religiosa Consagrada e Presbiteral, com diversas publicações na área. Padre Vagner é professor em cursos de pós-graduação para formadores da Vida Religiosa e do Clero, além de atuar no acompanhamento de religiosos(as) e presbíteros. É autor de 13 livros, entre os quais “Padres exaustos” e “Saúde mental no contexto da vida religiosa consagrada e presbiteral”. Durante esses dias ele estará trabalhando o tema a partir de uma proposta temática que lhe foi apresentada e definida: “Cuidar de si para cuidar do irmão”. Abaixo, uma entrevista com o Padre Vagner Sanagiotto.

Quando a Assembleia escolhe o tema “Cuidar de si para cuidar do irmão”, qual é o principal alerta que o senhor entende que ela quer fazer à vida fraterna e à missão hoje?

O tema escolhido para a Assembleia é muito importante e atual. Entendo que o principal alerta é que não existe cuidado fraterno sustentável sem um cuidado pessoal responsável e integral. Durante muito tempo, na vida religiosa consagrada, reforçou-se a ideia de doação total pelo Reino de Deus, mas nem sempre se falou com a mesma clareza sobre os limites humanos. Quando o religioso consagrado não cuida da própria saúde física, emocional, espiritual e relacional, corre o risco de transformar a missão em peso e a fraternidade em desgaste. O tema da Assembleia nos recorda que cuidar de si é condição para que a missão seja fecunda no cuidado dos irmãos de consagração.

O senhor pesquisa sobre a prevenção e a promoção da saúde mental na Vida Religiosa Consagrada. Quais são os sinais mais comuns de esgotamento (“fadiga pastoral”) em frades e presbíteros — e quais sinais a fraternidade costuma demorar mais para perceber?

Antes de responder a tua pergunta, gostaria de enfatizar a beleza da vocação a vida religiosa consagrada e presbiteral. Muito se doam totalmente pelo Reino de Deus, mas, por mais paradoxal que possa ser, o excesso pode adoecer. As pesquisas nos indicam que existe um crescente cansaço em se tratando da vivência pastoral.

Os sinais mais comuns de esgotamento pastoral incluem cansaço persistente, irritabilidade crescente, perda de entusiasmo pela missão, sensação de ineficácia, distanciamento afetivo das pessoas e empobrecimento da vida espiritual. Também aparecem alterações no sono, na alimentação e na motivação, entre outros sinais indicativos de que o esgotamento – fadiga pastoral – está presente.

Os sinais que a fraternidade mais demora a perceber são os internos: o vazio de sentido, a desmotivação pastoral, a oração feita apenas por obrigação e a perda silenciosa da alegria vocacional. Muitas vezes o religioso continua “funcionando” bem externamente, cumprindo agenda e tarefas, mas interiormente já está exausto. Como ele ainda “entrega resultados”, o sofrimento passa despercebido.

Na prática, o que significa “cuidar de si” dentro da Vida Religiosa Consagrada sem cair no individualismo? Que atitudes concretas (rotina, espiritualidade, descanso, acompanhamento) fazem diferença no dia a dia comunitário?

Cuidar de si, na Vida Religiosa Consagrada, significa administrar com responsabilidade a própria vida como dom recebido e confiado à missão. Não é colocar-se no centro, mas cuidar-se para servir melhor. Cuidar de si não significa ser fechado em si mesmo, mas é um dos sinais mais evidentes de maturidade vocacional. Quem cuida de si, descobre o significado de cuidar do outro.

Algumas atitudes concretas fazem grande diferença, promovem o bem-estar, como por exemplo: ter rotina equilibrada de oração e descanso, respeitar o dia de pausa, cultivar acompanhamento espiritual e, quando necessário, psicológico, manter hábitos saudáveis de sono e atividade física, e saber pedir ajuda. Também é essencial ter espaços de partilha verdadeira, onde não se precise ser sempre “forte”. Cada vez mais me convenço que o autocuidado nasce e se desenvolve na vida fraterna e se transforma em missão.

Como transformar o “cuidado do irmão” em gestos concretos dentro da fraternidade — especialmente quando há sobrecarga de atividades, diferenças de temperamento e desafios de convivência?

O cuidado do irmão começa na atenção e na escuta. Pequenos gestos têm grande impacto: perceber mudanças de comportamento, perguntar com sinceridade como o outro está, respeitar limites, evitar julgamentos precipitados (rótulos) e oferecer ajuda prática. Em contextos de sobrecarga, o cuidado também passa por redistribuição de tarefas e planejamentos comunitários mais condizentes com a realidade.

As diferenças na forma como se enfrenta e se organiza a vida exigem maturidade afetiva e comunicação clara. Nem sempre será possível evitar conflitos, mas é possível enfrentá-los com caridade e verdade. O cuidado fraterno não é apenas ser gentil, mas também saber dialogar, corrigir com respeito e apoiar nos momentos de fragilidade. Fraternidade saudável não é ausência de tensão, mas presença de cuidado mútuo.

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