
A abertura do jubileu franciscano no Rio reuniu fiéis, religiosos e representantes da família franciscana em uma celebração marcada pela fé, pela memória e pelo apelo à conversão
Por Carlos Moioli*
A Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro deu início, no dia 7 de março, ao Ano Jubilar Franciscano com uma Santa Missa celebrada na Catedral Metropolitana de São Sebastião, no Centro. A celebração foi presidida pelo arcebispo metropolitano, Cardeal Orani João Tempesta, e reuniu representantes das diversas expressões da família franciscana, religiosos, religiosas, consagrados e fiéis.
A programação começou às 7h, com uma visita à Capela do Trânsito de São Francisco, no Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca, lugar histórico da presença franciscana na cidade. Em seguida, foi realizada a peregrinação franciscana até a Catedral Metropolitana, conduzindo a relíquia de São Francisco de Assis pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro. O gesto simbolizou a continuidade do testemunho do santo na vida da Igreja e na história da cidade.

O Ano Jubilar Franciscano celebra os 800 anos do trânsito de São Francisco de Assis para a pátria celeste, ocorrido em 3 de outubro de 1226. O jubileu, proclamado pelo Papa Leão XIV, estende-se de 10 de janeiro de 2026 a 10 de janeiro de 2027, constituindo para toda a Igreja um tempo especial de graça, conversão e indulgências. O ano jubilar recorda também o itinerário espiritual vivido nos últimos anos, marcado pelas celebrações dos 800 anos do Presépio de Greccio, do Cântico das Criaturas e da recepção dos Estigmas no Monte Alverne.
Na abertura da celebração, Dom Orani destacou o significado espiritual deste tempo jubilar para toda a Igreja e para a Arquidiocese do Rio de Janeiro. “Nos reunimos na Catedral de São Sebastião para inaugurarmos o Ano de São Francisco em nossa arquidiocese. Toda a família franciscana, bem como as paróquias e capelas dedicadas a São Francisco e a Santa Clara, celebram os 800 anos do trânsito de São Francisco”, afirmou.
O arcebispo ressaltou ainda que o jubileu é um convite à renovação espiritual. “É um tempo de graça de Deus para a nossa conversão, onde São Francisco nos ensina com sua vida a alegria de viver o Evangelho”, disse. Ele também recordou a presença histórica da espiritualidade franciscana na cidade, destacando o Convento de Santo Antônio como um dos marcos da evangelização no Rio de Janeiro.
Reconstruir a fraternidade
Durante a homilia, Dom Orani relacionou o Ano Jubilar Franciscano com o tempo litúrgico da Quaresma, sublinhando o chamado à conversão e à experiência da misericórdia divina. “No tempo da Quaresma somos chamados continuamente à conversão. As práticas quaresmais, como oração, jejum, penitência e esmola, nos ajudam a voltar ao Senhor com um coração contrito e arrependido”, afirmou.
Inspirado na espiritualidade de São Francisco de Assis, o arcebispo recordou o chamado recebido pelo santo para reconstruir a Igreja. “Francisco de Assis recebeu no coração o chamado para reconstruir a Igreja. Essa reconstrução passa pela reconciliação, pelo perdão e pela misericórdia de Deus, que transforma a vida das pessoas”, destacou.
Dom Orani também enfatizou a atualidade do carisma franciscano diante dos desafios sociais do mundo contemporâneo. Segundo ele, o testemunho de São Francisco continua a inspirar a Igreja a promover a paz, a fraternidade e a atenção aos mais necessitados. “Somos chamados a reconstruir a fraternidade e a trabalhar por um mundo mais justo, mais humano e mais fraterno”, afirmou.
Ao refletir sobre a realidade da cidade do Rio de Janeiro, o arcebispo recordou que a espiritualidade franciscana pode contribuir para enfrentar os desafios sociais e as divisões presentes na sociedade. “Que o carisma de Francisco de Assis, com sua vivência da pobreza, da fraternidade e da proximidade com os pobres, ajude a nossa cidade a se tornar mais humana e mais solidária”, disse.
Nos passos de Francisco

A celebração reuniu representantes das diversas expressões da família franciscana presentes na Arquidiocese do Rio de Janeiro. Estiveram presentes o bispo emérito de Itaguaí (RJ), Dom José Ubiratan Lopes; Dom Roberto Lopes, vigário episcopal para a Vida Consagrada e delegado arquidiocesano para a Causa dos Santos; o cônego Cláudio dos Santos, pároco da Catedral Metropolitana; frei Carlos Roberto de Oliveira Charles, custódio provincial da Custódia Imaculada Conceição do Brasil dos Frades Menores Conventuais; frei Paulo Roberto Pereira, ministro provincial da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil da Ordem dos Frades Menores; frei Walter Ferreira Junior, guardião do Convento Santo Antônio; e frei Dalvio José da Silva, ministro provincial da Província Nossa Senhora dos Anjos da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos.
Também participaram da celebração irmãs Clarissas, membros da Ordem Franciscana Secular, representantes de novas comunidades inspiradas na espiritualidade franciscana, além de leigos e leigas que vivem e difundem o carisma de São Francisco na Arquidiocese.
Carisma franciscano
Ao final da Santa Missa, Dom Roberto Lopes, vigário episcopal para a Vida Consagrada e delegado arquidiocesano para a Causa dos Santos, dirigiu uma mensagem de agradecimento à família franciscana e aos fiéis presentes. “Agradecemos a Deus por este momento tão belo: os 800 anos da Páscoa de São Francisco. Ele é um grande ícone em toda a história da Igreja e para a humanidade”, afirmou.
Ao recordar a conversão de São Francisco, o vigário episcopal ressaltou a experiência decisiva vivida diante da cruz de São Damião. Segundo ele, a transformação interior do santo continua inspirando gerações de cristãos. “Ao se colocar de joelhos diante da cruz e fixar o olhar na cruz de São Damião, Francisco fez a experiência da escuta e ouviu o chamado: ‘Restaura a minha Igreja’”, destacou.
Dom Roberto enfatizou ainda que a resposta generosa de São Francisco marcou profundamente a vida da Igreja ao longo dos séculos. “Ele foi totalmente restaurado e transformado em um grande homem para a história da salvação”, afirmou, lembrando que, ao longo de oito séculos, o carisma franciscano inspirou inúmeras vocações e congregações religiosas.
O vigário episcopal também agradeceu a presença e a missão das diversas expressões da família franciscana na Arquidiocese do Rio de Janeiro, destacando o trabalho realizado em diferentes áreas pastorais e sociais. “Agradecemos todos os irmãos e irmãs da família franciscana — capuchinhos, conventuais e tantas outras expressões — pelo serviço que realizam em vários pontos da nossa arquidiocese”, disse.
Durante sua mensagem, Dom Roberto recordou ainda a presença histórica de congregações franciscanas na cidade e o testemunho de novas comunidades inspiradas no carisma de São Francisco. Ele mencionou, por exemplo, a história das Irmãs Franciscanas do Sagrado Coração de Jesus, que chegaram ao Brasil após deixarem a França e, a partir do Rio de Janeiro, expandiram sua missão por diversas regiões do país.
Outro aspecto ressaltado foi a participação ativa dos leigos na espiritualidade franciscana. “É muito bonito ver, em cada convento e comunidade, o engajamento dos leigos e o amor pelo carisma de Francisco”, afirmou.
Dom Roberto também recordou exemplos contemporâneos de pessoas tocadas pela espiritualidade franciscana, como o venerável Guido Schäffer, cujo processo de beatificação está em andamento na Arquidiocese do Rio, e o jovem santo Carlo Acutis, que demonstrou profunda devoção a São Francisco de Assis.
Encerrando sua mensagem, Dom Roberto destacou que a figura de São Francisco continua a inspirar pessoas dentro e fora da Igreja Católica. “Francisco é uma figura apaixonante, não apenas para os católicos, mas também para pessoas de outras religiões”, afirmou.
Conclusão da celebração
Ao final da celebração, foram rezadas as orações previstas para a obtenção da indulgência plenária concedida neste Ano Jubilar Franciscano. A liturgia foi concluída diante da imagem de São Francisco de Assis, na Catedral Metropolitana, com a oração composta pelo Papa Leão XIV para este jubileu.
*Do jornal Testemunho de Fé, da Arquidiocese do Rio de Janeiro
