Vaticano declara que supostas aparições de Jesus na França ‘não são sobrenaturais’

Basílica de São Pedro na Cidade do Vaticano. | Crédito: Xosema (CC BY-SA 4.0)

O cardeal enfatizou que a cruz não é meramente um ornamento religioso: é um sinal que fala ao coração.

Catholic News Agency

O Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF) declarou que as alegadas aparições de Jesus em Dozulé, França, não têm uma origem divina autêntica e, portanto, “não são sobrenaturais”.

O prefeito do dicastério, Cardeal Victor Manuel Fernandez, confirmou a declaração baseada nas Normas para Discernir Alegados Fenômenos Sobrenaturais em um documento divulgado em 12 de novembro e endereçado ao bispo de Bayeux-Lisieux, Jacques Habert.

Em 1972, Madeleine Aumont afirmou que Jesus lhe apareceu, pedindo à Igreja que construísse uma gigantesca “cruz gloriosa” em Dozulé, ao lado de um “santuário da reconciliação”. Além disso, a suposta vidente alegou que Jesus anunciou seu retorno “iminente”.

No documento, a autoridade do Vaticano observa que as alegadas aparições na cidade normanda “despertaram interesse espiritual”, mas também “não poucas controvérsias e dificuldades de natureza doutrinal e pastoral” que requerem esclarecimento.

Somente a cruz de Jerusalém é o sinal universal da Redenção

Em primeiro lugar, a DDF esclarece que é errôneo comparar a “cruz gloriosa” com a “cruz de Jerusalém”, como fez Aumont após a quinta suposta aparição. O Vaticano afirma que “aquela madeira, erguida no Calvário, tornou-se o verdadeiro sinal do sacrifício de Cristo, que é único e irrepetível” e que qualquer outro “sinal” da cruz “não pode ser considerado no mesmo nível”.

“Comparar a cruz solicitada em Dozulé com a cruz de Jerusalém implica o risco de confundir o sinal com o mistério e de dar a impressão de que o que Cristo realizou de uma vez por todas poderia ser ‘reproduzido’ ou ‘renovado’ em um sentido físico”, explica a carta.

Neste contexto, a declaração esclarece que o poder da cruz “não precisa ser replicado, pois já está presente em cada Eucaristia, em cada igreja, em cada crente que vive unido ao sacrifício de Cristo”. Assim, alerta para o risco de fomentar uma “sacralidade material” que não pertence ao coração do cristianismo.

Fernández também alertou para o risco de essa cruz se tornar “um símbolo de uma mensagem autônoma” e salientou que “nenhuma cruz, nenhuma relíquia e nenhuma aparição privada podem substituir os meios de graça estabelecidos por Cristo”, nem ser consideradas uma “obrigação universal”.

O cardeal enfatizou que a cruz não é meramente um ornamento religioso: é um sinal que fala ao coração. “Aqueles que usam a cruz ao pescoço ou a guardam em casa proclamam, mesmo sem palavras, que Cristo crucificado é o centro de suas vidas e que toda alegria e tristeza encontram seu significado nele.”

O perdão vem de Cristo

A carta enfatiza o que considera uma das afirmações mais problemáticas: a referência à “remissão dos pecados” através da contemplação da cruz de Dozulé.

Aumont chegou ao ponto de afirmar: “Todos aqueles que vierem se arrepender aos pés da ‘gloriosa cruz’ [de Dozulé] serão salvos.”

O Vaticano destaca o erro teológico dessas afirmações, que são “incompatíveis com a doutrina católica sobre a salvação, a graça e os sacramentos”. Fernández esclareceu que “nenhum objeto material pode substituir a graça sacramental” e que o perdão vem de Cristo por meio do sacramento da penitência.

Em relação ao ‘retorno iminente de Cristo’

Em relação aos avisos que Jesus supostamente revelou sobre seu retorno “iminente” como o Ressuscitado, Fernández destacou que, embora o retorno de Cristo seja uma verdade de fé, “ninguém pode saber ou prever a data exata ou seus sinais”.

Consequentemente, a declaração afirma que a Igreja “permanece alerta contra interpretações milenaristas ou cronológicas, que correm o risco de fixar o tempo ou determinar as modalidades do juízo final”.

“O perigo de reduzir a esperança cristã à expectativa de um retorno iminente com eventos extraordinários deve ser firmemente evitado”, enfatiza o texto.

Com esses esclarecimentos, a DDF conclui que o fenômeno das supostas aparições em Dozulé “deve ser considerado, definitivamente, como não sendo de origem sobrenatural, com todas as consequências que daí decorrem”.

Esta reportagem foi publicada originalmente pela ACI Prensa, parceira da CNA em notícias em espanhol. Foi traduzida e adaptada pela CNA.

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