
A oração do Rosário ajuda a quem reza a entrar em sintonia com o ritmo do Evangelho, deixando-se transformar pelo Espírito Santo para aprender a ler e relacionar a sua vida à luz do mistério pascal.
Por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R. / A12 Redação
A tradição da Igreja há muitos anos dedica o mês de outubro a Nossa Senhora do Rosário, memória que tem suas raízes na longínqua Idade Média e, sobretudo, na vitória dos cristãos sobre as forças turcas em Lepanto, no ano de 1571. Graças à vitória nessa batalha, a Europa se viu livre das ameaças e da possibilidade de erradicação da fé cristã do continente.
Ao longo do tempo, porém, a devoção foi evoluindo em seu formato, assumindo um significado muito mais amplo: Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja, acompanha o povo cristão no caminho da fé com a graça de sua intercessão materna.
A devoção ao Rosário não se faz apenas na forma de uma oração repetitiva, que muitos julgam até monótona, mas funciona como uma verdadeira escola de contemplação: nas dez contas menores das Ave-Marias, o coração e o pensamento de quem reza estão imersos na contemplação dos mistérios da vida de Cristo, desde a sua encarnação até à glória do Ressuscitado, passando pela paixão e morte na cruz.
E na oração do Pai-Nosso, oração universal, existe o forte apelo à fraternidade entre os “homens de boa vontade” que lutam pelo “pão nosso de cada dia”, mesmo sabedores de seus pecados e fraquezas. Neste sentido, Maria torna-se a guia e mestra da oração, ajudando a pessoa que reza a fixar seu olhar, mente e coração em Jesus.

Oração missionária por excelência
A oração do Rosário ajuda a quem reza a entrar em sintonia com o ritmo do Evangelho, deixando-se transformar pelo Espírito Santo para aprender a ler e relacionar a sua vida à luz do mistério pascal. Como o rosário é uma oração simples, popular e, ao mesmo tempo, muito profunda, coloca-se ao alcance de todas as categorias humanas. E quando reza, a pessoa abre o seu coração para Deus e para os irmãos, colocando assim nas mãos do Senhor as necessidades temporais de toda a Igreja.
O mês de outubro, que começa com a celebração de Santa Teresinha do Menino Jesus, declarada pela Igreja como Patrona das Missões, há muitos anos é celebrado como mês missionário, culminando com a celebração do Dia Mundial das Missões, desejado pelo Papa Pio XI em 1926, e que no Brasil é sempre celebrado no penúltimo domingo do mês. Neste mês, recordamos que a Igreja, por sua natureza, é toda ela missionária (cf. Ad gentes, 2).
No Brasil, por ação da CNBB, em parceria com as Pontifícias Obras Missionárias (POM), cada ano se celebra o mês com um tema e motivação especial, sempre em sintonia com as demais campanhas, sobretudo, com a Campanha da Fraternidade.
E desde muitos anos o Papa divulga uma mensagem especial para esse mês, orientadora para toda a cristandade.
Maria, missionária do Pai
Com a oração do Santo Rosário de forma individual, em família, em grupo ou em comunidade, enquanto se contempla os mistérios da vida e da missão de Jesus Cristo, se percebe também o exemplo e a força que brotam da sempre Virgem Maria.
Ela que guardou a Palavra no coração e produziu, como terra boa, frutos abundantes, torna-se modelo por excelência do discipulado missionário, pois acolhe o anúncio do anjo com plena disponibilidade, leva Cristo aos outros, como na visitação a Isabel, intercede em Caná, mostrando atenção às necessidades concretas das pessoas, sofre aos pés da Cruz, unida à missão redentora de seu Filho e espera o Espírito Santo no cenáculo, como mãe orante da comunidade missionária.
Desta forma, o Rosário se torna também uma oração missionária ao contemplar os mistérios de Cristo com Maria, nos impelindo a anunciar com a nossa vida aquilo que contemplamos na fé.
Em nossas paróquias e comunidades, há muitos anos, o mês de outubro se transformou numa preciosa oportunidade para encontros comunitários de oração do Rosário, nas igrejas, nas famílias, nos grupos de oração e círculos bíblicos como sinal de fé compartilhada.
Ali se faz também uma popular catequese mariana, que ajuda a redescobrir a figura de Maria no Evangelho, no caminho da Igreja e no agir cristão em sociedade embasados na fé que se celebra.
A Igreja tem nos impelido, especialmente no Pós-Vaticano II, a crescermos na consciência missionária e no compromisso de sermos uma Igreja verdadeiramente sinodal, onde brota a força e a multiplicidade de serviços e ministérios, ordenados ou não.
Por meio de testemunhos, coletas para as missões, iniciativas de solidariedade e campanhas de transformação social pela ecologia e preocupação com “nossa casa comum”, podemos viver a nossa condição de cristãos missionários herdada em nosso batismo.

Oração pela paz
Um recente relatório apresentado na Espanha destacou um aumento generalizado de tensões internacionais e de guerras no mundo, com um número crescente de mortes e violações generalizadas dos direitos humanos. Em 2024, foram constatados 37 conflitos armados no mundo, concentrados na África (17), Ásia e Pacífico (10), Oriente Médio (6), Europa (2) e Américas (2).
Por isso, a exemplo daquilo que a Igreja nos pede e que todos os Papas tanto insistem, a oração do Rosário tem uma força especial em favor da paz tão urgente, porque o Rosário é uma arma de paz e de reconciliação entre as pessoas, grupos e nações.
Rezar o Rosário em outubro significa aprender de Maria a se abrir a Cristo e, ao mesmo tempo, a trazê-lo ao mundo com coração missionário. Não se trata apenas de repetir fórmulas, mas de se deixar transformar pelo amor de Deus contemplado nos mistérios.
O Rosário torna-se um ato missionário porque, quando os lábios recitam a Ave-Maria, o coração prepara-se para viver o Evangelho; enquanto a mente contempla Cristo, as mãos se abrem para os irmãos.
A guisa de conclusão recordamos as palavras do saudoso Papa Francisco: “Cada batizado é uma missão. Somos missão na terra, e é por isso que estamos neste mundo.”
